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Pandemia expõe raízes da desigualdade no Brasil

11 estreiam em lista de bilionários; 19 milhões passam fome


As contra-reformas que foram aplicadas no Brasil nos últimos anos, como a Trabalhista e a da Previdência, somadas ao contexto sócio-econômico da pandemia de covid-19, estão mergulhando a população brasileira em um profundo abismo de desigualdade. A publicação Síntese de Indicadores Sociais, divulgada pelo IBGE em 2020, trouxe estimativas do Banco Mundial com base no índice de Gini, onde o Brasil fica dez países mais desiguais do mundo, sendo o único latino-americano na lista onde estão países do continente africano. Por outro lado, o país figura como a 12º maior economia do mundo.


O crescente desemprego e aumento da informalidade no mercado de trabalho são alguns dos fatores que colocam o país novamente no mapa da fome e da miséria nesse cenário de desigualdade. A taxa de desocupação no país, entre novembro de 2020 e janeiro deste ano, ficou em 14,2%. O dado faz parte da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua-IBGE). A taxa de desocupação é o percentual de pessoas da força de trabalho que estão desempregadas. Segundo o estudo trimestral, a população desocupada no período chegou a 14,3 milhões de pessoas. Desde que a Pnad Contínua foi criada, em 2012, a taxa só fica atrás dos 14,3% registrados entre agosto e outubro do ano passado.


Somando-se a isso, segundo o estudo do IBGE, 34,1 milhões de trabalhadores estão na informalidade, significando 39,7% da população ocupada. No trimestre anterior, esse percentual somava 38,8%. Já a população desalentada, aquela que desistiu de procurar emprego, somou 5,9 milhões de pessoas, número 25,6% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.


E de acordo com dados do Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp) da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgado hoje (8) a tendência é de piora. O IAEmp busca antecipar tendências do mercado de trabalho com base em entrevistas com consumidores e com empresários dos serviços e da indústria.


“Em março, o IAEmp manteve sua trajetória de queda de forma mais intensa. Essa tendência de piora dos indicadores de mercado de trabalho em 2021 são justificadas pelo agravamento do quadro da pandemia e as consequentes medidas restritivas. O retorno para um caminho de recuperação ainda depende da velocidade do programa de vacinação e da melhorada atividade econômica”, disse, em nota, o economista da FGV IBRE Rodolpho Tobler.


Enquanto os números de desemprego, desalento e informalidade sobem, a renda dos brasileiros registrou queda de 2,9% no último trimestre calculado pela Pnad Contínua, ficando em RS$ 2.521. Uma média que não explica a realidade, já que cerca de 40 milhões de brasileiros estão vivendo em situação de extrema pobreza, com uma renda per capita inferior a R$ 89,00 por mês.


Por outro lado, para os super ricos, a crise passou ao largo. A lista de bilionários da Forbes, divulgada na terça-feira (06), mostrou que o número de bilionários disparou em meio à pandemia e chegou a 2.755 – 660 a mais que um ano atrás. Entre os novos super ricos, 11 residem no Brasil. Juntos, somente os cinco brasileiros mais ricos acumulam uma fortuna equivalente a R$ 41,3 bilhões. O que equivale a quase 16,4 milhões de vezes a renda média da população brasileira.


Brasil no mapa da fome


O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), e divulgado nesta semana, indica que nos últimos meses do ano passado 19 milhões (9%) de brasileiros passaram fome. A sondagem também estima que 55,2% dos lares brasileiros, cerca de 116,8 milhões de pessoas, conviveram com algum grau de insegurança alimentar no final de 2020.


De acordo com os pesquisadores, o número encontrado, de 19 milhões de brasileiros que passaram fome na pandemia do novo coronavírus, é o dobro do que foi registrado em 2009, com o retorno ao nível observado em 2004. A coleta de dados ocorreu entre os dias 5 e 24 de dezembro de 2020 nas cinco regiões brasileiras, abrangendo tanto áreas rurais como urbanas, no período em que o auxílio emergencial concedido pelo governo federal a 68 milhões de brasileiros, no valor inicial de R$ 600 mensais, havia sido reduzido para R$ 300 ao mês.


O presidente da Rede Penssan, Renato Maluf, disse à Agência Brasil acreditar que se a pesquisa fosse realizada agora os dados poderiam ser piores. “É crucial que seja retomado o auxílio emergencial em um valor significativo”. Para Maluf, o valor que está sendo dado esta semana não pode ser considerado uma política pública. Os valores variam de R$ 375 (para famílias chefiadas por mulheres) a R$ 150 (para quem mora sozinho).


De acordo com a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do DIEESE de fevereiro deste ano, somente a cesta básica chega a quase duas vezes o teto do auxílio emergencial de 2021. O menor valor foi registrado em Aracaju, onde a alimentação básica custa R$ 445,90 por mês. Já em Florianópolis, os mesmos produtos chegam a um total de R$ 639,81. Na capital catarinense, a variação nos últimos dose meses foi de +29,74. Em Porto Alegre o custo da cesta básica ficou em R$ 632,67 em fevereiro, apresentando uma variação de +28,37% em 12 meses.